Teresina em pedacinhos de mim

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2015. Nestes 163 anos, cada velinha do bolo não consegue apagar-me pedacinhos e estampas de meu álbum. Andando pelo centro ou arredores da capital, a paixão impregnada, porque só se ama quando se conhece.

Entrar na Igreja de SÃO BENEDITO, saborear um capítulo da minha infância… Às 4 da madrugada de domingo, sinos tocavam, em três momentos, para a missa das 5. De todo canto da pequena TERESINA, dava para se ouvir a convocação sagrada. Meu pai me levava, na garupa da bicicleta, da Piçarra à igreja. O templo enchia-se de fiéis. Frei Heliodoro na liturgia, e dezenas de cantores no coro superior da igreja, encantavam corações.

No romance O MANICACA, 1901, o magistrado e escritor ABDIAS NEVES retrata TERESINA dos últimos anos do século 19 e início do século 20. O romancista descreve a capital de poucas quadras, praças e ruas. A cidade acabava nas confluências das Igrejas SÃO BENEDITO, NOSSA SENHORA DAS DORES ou MERCADO CENTRAL. Rapazes e adultos exibiam bengala, terno, cartola e ginete. A vida social circulava, praticamente, nos arredores da PRAÇA DA REPÚBLICA (hoje DEODORO ou DA BANDEIRA) e a IGREJA DO AMPARO. Sem calçamento, sem água canalizada, sem energia elétrica; somente LAMPIÕES pendurados em postes. Chegavam miseráveis retirantes da seca de 1877, famintos e extorquidos por espertalhões. No NORDESTE, morreram mais de 500 mil cidadãos.

A modesta TERESINA, fundada em 1852, acabava no rústico cemitério de negros e expurgados, no ALTO DA JURUBEBA, onde FREI SERAFIM DE CATÂNIA erguera a IGREJA DE SÃO BENEDITO, 1874/1894, em homenagem a FREI BENEDITO, santo frade leigo, nascido na SICÍLIA, filho de escravos etíopes. Daquele templo estendia-se a ESTRADA REAL, a futura AVENIDA FREI SERAFIM, cercada de florestas e sítios até o RIO POTI, onde escravos extraíam pedras e areia para construção do templo.

A primeira geração de Teresina desfrutava a PRAÇA DEODORO. A segunda geração curtia a PRAÇA RIO BRANCO. A terceira, a PRAÇA PEDRO II. A moda, hoje, é se esbaldar na praça da alimentação do SHOPPING. A primeira geração da cidade com suas bengalas, ternos, cavalos e chapéu. A segunda, no BAR AVENIDA, por trás da IGREJA DO AMPARO (restam velhinhos sentados nos bancos da RIO BRANCO, remoendo vetustas paixões). A terceira, maioria sessentona, da PRAÇA PEDRO II, lembrando velhos apetites da carne da PAISANDU, das tertúlias do CLUBE DOS DIÁRIOS, do apito da corneta da POLÍCIA MILITAR, mandando as virgens voltar pra casa, às 9 horas, depois de rodarem a praça. Garotas de hoje parecem mais avançadas que as seletas donzelas da PAISSANDU. Avisam aos pais que vão ao shopping, mas sabe Deus com quais intenções e companhias. CAMISINHA virou moda. Namorar, que nada! A onda do selfie é FICAR ou morar juntos.

TERESINA dos ARRANHA CÉUS, intensa vida noturna, restaurantes de primeira, sensores em cada poste para flagrar dinheiro dos motoristas, mas não aprendeu a construir calçamento de vergonha ou criar POLÍCIA MUNICIPAL. Atuante como os fiscais do STRANS. A cidade orgulha-se das escolas e clínicas classificadas no ranking nacional e pena por engolir gororoba de gestores de obras inacabadas. Porém mazelas não me roubam a paixão pela minha cidade.

José Maria Vasconcelos
[email protected]







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