Artigo – O Teatro dos Maniqueístas

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Apresentação: “A veneração do profano”

A iconolatria (adoração de imagens) é um fenômeno muito relatado pela história do cristianismo. Daniel-Rops ( “A Igreja dos Tempos Bárbaros”, 1959) descreve que na alta Idade Média, a devoção às imagens atingiu patamares surreais. Era comum a cerimônia de batismo ser realizada aos pés de um ícone (estátua ou totem) pomposamente vestido, adornado com ouro, joias e marfim. Não raro o próprio artefato era eleito padrinho do ritual. Moribundos infectados pela peste bubônica ingeriam raspas de tintas de um ícone acreditando na cura. Para se chegar à redenção a plebe cristã entendia suficiente beijar noventa e nove vezes o crucifixo. A representação física do santo era mais valiosa que a sua verdadeira projeção espiritual. Eis a veneração do profano.

Complicação: “A irracionalidade da multidão”
O psicólogo francês Gustave Le Bon em “A psicologia das multidões” (1895) relata que, imerso na multidão, convicto de não ser individualizado e com a certeza do anonimato, o sujeito ingressa em um estado nostálgico na crença de sua impunidade. A camuflagem social propicia o afloramento dos seus instintos mais abissais, agindo por impulso e abandonando a casca moral que individualmente ostenta. Hipnotizada, a massa é lançada aos auspícios de um líder e a ele procura se assemelhar: a irracionalidade da multidão é a imitação cega do poder absoluto.

Clímax: “Dois extremos se atraem”
Mesmo no ambiente acadêmico, é corrente descrever o fascismo e o comunismo como dois extremos da teoria política. Contudo, em uma análise apurada é possível se concluir que eles são mais próximos do que diferentes.
A Teoria da Ferradura (horseshoe theory), desenvolvida pelo pensador esquerdista francês Jean-Pierre Faye, admite o cenário político como sendo não-linear. Em vez de descrever as ideologias em um plano reto, sobre uma régua, Faye coloca a esquerda e a direita nas extremidades de uma ferradura. Nesse sentido a política de extrema esquerda (comunismo) é tão totalitária quanto o fascismo: ambas possuem um líder incontestável que assume controle absoluto sob os direitos dos cidadãos; censura aos meios de comunicação; militarização; nacionalismo e a existência de um partido único. É onde os dois extremos se atraem.

Desfecho: “Da imbecilidade declarada ao caos político”

Fato 1: 03/05/2020 – Jornalistas são agredidos em ato público a favor do Presidente da República.

Fato 2: 25/07/66 – Explosão de bomba no Aeroporto Internacional de Guararapes, com 17 feridos e 2 mortos.

Embora a psicologia adote critérios bem sedimentados para definir o idiota, o cretino e o imbecil, utilizaremos um dos termos sem maior rigor científico, no sentido corrente de seu uso, exatamente como remete o vernáculo pátrio. Imbecil é aquele que revela tolice, fraqueza de espírito e por isso comporta-se de modo arrogante, esnobe e boçal.
A idolatria e a veneração, quando aplicadas ao ambiente político, faz emergir regimes perniciosos, corruptos e autocráticos. O culto à personalidade e a defesa dogmática ao regime é o fio condutor para a polarização ideológica e fonte da efusão irracional do famigerado pensamento binário.
O risco é quando o militante extremista (seja ele de esquerda ou de direita), ingressa em um contexto de multidão, seja ela física ou virtual (sim, atualmente as multidões se revelam por meio de redes sociais). Aqui é o cenário propício para debates estéreis, ameaças, crimes e violências de toda a ordem: berço sombrio da esquizofrenia política.
O idólatra hipnotizado, imerso e comungado em sua grei, repele qualquer espaço sadio ao discurso. Convicto de sua impunidade viola toda dignidade possível e mancha a curva da história com tintas de intolerância.
Sem perceber estão mais próximos do que nunca. Apesar de ser uma vizinhança nociva e doentia, as duas pontas da ferradura não se unem completamente, em um estado deplorável de anarquia moral. Com um riso sarcástico e ao som dos aplausos do povo em ilusão, a imbecilidade declarada apaga as luzes da ribalta e por derradeiro encerra as cortinas do cadafalso indecoroso no teatro dos maniqueístas.

Por Lucas Rodrigues
Professor de Direito e pesquisador

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